Haviam árvores por todos os lugares próximos, olhou para cima e quase não viu o céu.
Percebeu que estava em uma floresta densa que parecia envolta de magia.
Ouviu os pássaros anunciando algo mórbido, sentiu um arrepio que perpassou todo seu corpo,
diminuiu sua respiração para aumentar sua percepção e aguçar os sentidos. Tudo o que viu e sentiu parecia anormal, até ela mesma estava diferente, parecia uma menina envergonhada.
Começou a caminhar, andou por entre a floresta tentando achar uma saída. Olhava para todos os lados e seguia em frente, até que viu uma clareira. Aproximou-se e se deu conta de que havia um prédio ali. Haviam crianças correndo e gritando. Caminhou até o prédio, era cinza escuro, ela conhecia aquele lugar. Olhou para o pátio central, sentiu uma ternura incontrolável.
Era uma escola, as crianças usavam uniformes brancos com detalhes azuis, e em suas faces havia um contentamento que para ela parecia estranhamente íntimo. Conhecia cada parte daquele lugar. Conhecia as pessoas que estavam ali, e se emocionou ao perceber quanta saudade sentia. Mas também sabia que ali nunca fora um lugar que ela poderia dizer que se encaixava, ela era um alienígena, uma criança estranha. Toda aquela paisagem não combinava com ela, aliás, nunca combinara. Contudo, sentia saudades. Sua infância toda passou naquele lugar lindo, cercado de paz.
Lembrou-se de seus amigos, das brincadeiras, das músicas, dos sonhos. E por um momento olhou para si e deparou-se com a menina que um dia fora, cabelos longos, magra, olhos tristes, sorriso iluminador. Seu corpo minúsculo era desajeitado, sua pele era muito macia e seu rosto era bem jovem. Não tinha seios, nem curvas. Sentiu-se extremamente feliz, era como se estivesse encontrado algo maravilhoso que há muito tempo havia perdido. Correu pela escola, olhou cada detalhe, lembrou-se dos esconderijos. Viu as freiras conversando próximo à entrada principal e sorriu gentilmente para elas, como se elas fossem suas melhores amigas. Abraçou seus amigos e viu lágrimas suaves escorrendo pela face e sorriu mais ainda. Era reconfortante sentir tudo aquilo, agradeceu a Deus por fazer os sonhos, e por ela sentir-se bem ao menos neles.

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